Assim, precisamos olhar mais de perto para a mente em si. As primeiras coisas que observamos são as correntes de pensamento que fluem continuamente, sem que nem mesmo estejamos cônscios delas. Queiramos ou não, incontáveis pensamentos estão sempre cruzando a nossa mente, nascidos das nossas sensações, das nossas recordações e da nossa imaginação. Mas há também uma qualidade dessa mente que está sempre presente, sejam quais forem os pensamentos que nos visitem. Essa qualidade é a consciência primeira que subjaz a todo pensamento. É ela que prevalece no raro momento em que a mente repousa, como se estivesse imóvel, conservando mesmo assim a capacidade de conhecer. Essa faculdade, essa presença aberta e simples, é o que, no budismo, chamamos de consciência pura, porque ela pode existir mesmo na ausência de construtos mentais.
Se continuarmos a deixar que a mente observe a si mesma, descobriremos, experienciando esta consciência pura, os pensamentos que dela emergem. Essa consciência de fato existe. Mas, fora isso, o que mais podemos dizer a respeito? Esses pensamentos têm características inerentes? Têm alguma localização particular? Não. Têm cor? Forma? Também não. Podemos conhecê-los, mas não há nenhuma característica real ou intrínseca neles. Na consciência pura experienciamos a mente como desprovida ou vazia de existência inerente. Essa noção de vacuidade do pensamento é sem dúvida muito estranha à psicologia ocidental. A que propósitos ela serve? Antes de tudo, quando surge uma emoção ou um pensamento forte – a raiva, por exemplo – o que geralmente acontece? Com toda a facilidade, esse pensamento nos domina, amplificando-se e se multiplicando a seguir em numerosos novos pensamentos que nos perturbam e nos cegam, deixando-nos em estado de prontidão para expressar palavras e cometer atos, às vezes violentos, que podem causar sofrimento aos outros, e dos quais logo nos arrependemos. Em vez de desencadear esse cataclismo, podemos examinar o pensamento raivoso em si e chegar a ver que, desde o início, ele nunca foi mais do que espelhos e reflexos.
Ainda que não seja fácil experienciar a consciência pura, é possível. Meu grande e saudoso amigo Francisco Varela confidenciou-me – em um contato a distância feito algumas semanas antes da sua morte causada por um câncer – que ele estava conseguindo ficar quase todo tempo nessa presença mental pura. A dor física lhe parecia muito longínqua e não constituía obstáculo algum para sua paz interior. Além disso, bastavam-lhe os analgésicos mais fracos. Mais tarde, a sua esposa, Amy, disse-me que ele manteve a sua serenidade contemplativa até o último suspiro. Fonte: www.budavirtual.com
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